Necessidade da Teoria

Por que precisamos de uma teoria marxista

Por que precisamos tanto de uma teoria? Sabemos que há uma crise. Sabemos que somos roubados por nossos patrões. Sabemos que estamos todos famintos. Sabemos que precisamos do socialismo. Todo o resto é apenas para intelectuais.

Você freqüentemente ouve palavras como essas de militantes socialistas e sindicalistas. Tal visão é fortemente encorajada pelos anti-socialistas, que tentam dar a impressão de que o marxismo é uma doutrina, obscura, complicada e chata.

Idéias socialistas são “abstratas”, dizem eles. Podem parecer muito corretas na teoria, mas o senso comum da vida real nos mostra algo totalmente diferente.

O problema com esses argumentos é que as pessoas que os defendem, têm uma teoria delas próprias, mesmo que se neguem a reconhecê-lo. Pergunte a elas qualquer questão sobre a sociedade e elas tentarão responder com uma ou outra generalização. Alguns exemplos:

“As pessoas são naturalmente egoístas”.

“Qualquer um pode vencer na vida se se esforça o suficiente“.

“Se não existissem os ricos, não haveria ninguém para dar emprego para nós.”

“Se pudéssemos educar os trabalhadores, a sociedade seria diferente.”

“É o declínio moral que levou o país para esse estado de coisas.”

Ouça qualquer discussão na rua, no ônibus, no bar. Você ouvirá dúzias de afirmações como essas. Em todas e em cada uma está presente uma visão sobre as razões porque a sociedade é tal como é sobre como as pessoas podem melhorar suas condições de vida. Todas essas visões são “teorias” sobre a sociedade.

Quando as pessoas dizem que não têm qualquer teoria, o que realmente querem dizer é que elas não organizaram suas concepções sobre a vida e o mundo.

 

Isto é particularmente perigoso para quem está tentando mudar a sociedade. Pois os jornais, o rádio, a TV, estão permanentemente enchendo nossas mentes com tentativas de explicar a confusão em que a sociedade se encontra. Esperam que nós aceitemos o que eles dizem sem pensar mais sobre essas questões.

Mas você não pode lutar para efetivamente mudar a sociedade, se não aprender a reconhecer o que é falso em todos esses diferentes argumentos e explicações.

Isto foi mostrado pela primeira vez há 150 anos. Entre 1830 e 1840, o desenvolvimento da indústria em regiões como o noroeste da Inglaterra arrastou centenas de milhares de homens, mulheres e crianças para trabalhos de remuneração miserável. Foram forçados a suportar condições inacreditáveis de pobreza.

Eles começaram a lutar contra isso com as primeiras organizações de trabalhadores – os primeiros sindicatos. E na Inglaterra, com o primeiro movimento por direitos políticos para os trabalhadores, o Cartismo. Junto com esses movimentos surgiram os primeiros grupos pequenos de pessoas dedicadas à causa da conquista do socialismo. Imediatamente surge o problema sobre como o movimento dos trabalhadores poderia atingir seu objetivo.

Algumas pessoas diziam que seria possível persuadir os governantes da sociedade a mudar as coisas por meios pacíficos. A “força moral” de um movimento pacífico de massa asseguraria que fossem concedidos benefícios aos trabalhadores. Centenas de milhares de pessoas organizaram-se, manifestaram-se, trabalharam para construir um movimento com base nessas concepções – somente para acabarem derrotados e desmoralizados.

Outros reconheceram a necessidade de usar “força física”, mas achavam que isso podia ser alcançado por pequenos grupos de conspiradores isolados do restante da sociedade. Estes também conduziram dezenas de milhares de trabalhadores a lutas que acabaram em derrota e desmoralização.

Havia ainda outros que acreditavam que os trabalhadores podiam alcançar seus objetivos através da ação econômica. Na Inglaterra, em 1842, a primeira grande greve geral da história, aconteceu nas áreas industriais do norte, com dezenas de milhares de trabalhadores parando por quatro semanas até serem forçados a retornar ao trabalho devido à fome e privações.

Foi no final do primeiro estágio de lutas derrotadas dos trabalhadores, em 1848, que o socialista alemão, Karl Marx, expôs o conjunto de suas idéias em seu panfleto O Manifesto Comunista.

Suas idéias não saíram do nada. Elas tentavam proporcionar uma base para lidar com todas as questões que tinham sido levantadas pelo movimento dos trabalhadores da época.

As idéias que Marx desenvolveu são relevantes ainda hoje. É estupidez dizer, como fazem algumas pessoas, que elas estão ultrapassadas porque foram escritas 130 anos atrás. Na verdade, todas as noções de sociedade com que Marx discute estão ainda largamente presentes. Os cartistas discutiam “força moral” ou “força física”, e os socialistas de hoje discutem a “via parlamentar” ou a “via revolucionária”. Entre aqueles que são revolucionários a discussão entre posições contrárias ou favoráveis ao terrorismo está tão viva hoje, como estava em 1848.

Os Idealistas

Marx não foi a primeira pessoa a tentar descrever o que havia de errado com a sociedade. No tempo em que ele escrevia, novas invenções nas fábricas proporcionavam riquezas em uma escala nunca sonhadas pelas gerações precedentes. Pela primeira vez parecia que a humanidade tinha os meios para defender-se contra calamidades naturais que tinham sido o flagelo do passado.

No entanto, isso não significou qualquer melhora na vida da maioria das pessoas. Bem ao contrário. Os homens, mulheres e crianças que trabalhavam nas novas fábricas levavam uma vida muito pior que seus avós, que trabalhavam no campo. Seus salários mal davam para mantê-los acima da linha da miséria; e crises periódicas de desemprego acabavam por jogá-los bem abaixo disso. Viviam amontoados em cortiços miseráveis, sem água e esgoto, sujeitos a terríveis epidemias.

Ao invés de o desenvolvimento da civilização trazer felicidade e bem-estar geral, estava dando origem a uma miséria ainda maior.

Isto não foi notado apenas por Marx, mas por alguns dos outros grandes pensadores do período. Homens como os poetas Blake e Shelley, os franceses Fourier e Proudhon, os filósofos alemães Hegel e Feuerbach.

Hegel e Feuerbach davam o nome de alienação ao infeliz estado em que se encontrava a humanidade. Um termo que você ainda deve ouvir com freqüência. Hegel e Feuerbach queriam dizer que homens e mulheres sempre descobriam que eram dominados e oprimidos pelo que eles mesmos tinham feito no passado. Desse modo, dizia Feuerbach, os homens desenvolveram a idéia de Deus e então curvaram-se diante dela, sentindo-se miseráveis porque eles não podiam viver além de algo que eles mesmos tinham criado. Quanto mais avançada a sociedade, mais miseráveis, mais “alienadas” as pessoas tornam-se.

Em seus primeiros escritos, Marx tomou essa noção de “alienação” e o aplicou à vida daqueles que criam a riqueza da sociedade.

“O trabalhador torna-se mais pobre na mesma medida da riqueza que produz, na mesma proporção em que cresce sua produção em poder e alcance… O aumento do valor do mundo das coisas ocorre na proporção direta da desvalorização do mundo dos homens… O objeto que o trabalho produz confronta-se com ele como algo alheio, como um poder independente do produtor….”

No tempo de Marx, a explicações mais populares sobre o que estava errado com a sociedade, tinham ainda um fundo religioso. A miséria da sociedade, diziam, ocorria porque as pessoas não conseguiam fazer o que Deus queria que elas fizessem: Se todos nós “renunciarmos ao pecado”, as coisas se tornarão justas.

Uma concepção parecida é freqüentemente ouvida hoje, embora negue qualquer caráter religioso. Ela afirma que “para mudar a sociedade, você precisa primeiro mudar a si mesmo. Se mulheres e homens se livrassem de seu ‘egoísmo’ ou ‘materialismo'(ou ocasionalmente de seus constrangimentos), a sociedade ficaria melhor.”

Uma visão parecida com essa fala não de mudar todos os indivíduos, mas de alguns indíviduos-chave – aqueles que exercem o poder na sociedade. A idéia era tentar fazer os ricos e poderosos “enxergarem a razão”.

Um dos primeiros socialistas, Robert Owen, começou tentando convencer empresários de que eles deviam ser bondosos com seus trabalhadores. A mesma idéia ainda é dominante entre os líderes do Partido Trabalhista Britânico, incluindo sua ala à esquerda. É só notar como eles consideram os crimes dos patrões como “enganos”, como se um pouco de convencimento persuadisse os grandes empresários a relaxar suas garras sobre a sociedade.

Marx refere-se a todas essas visões como “idealistas”. Não porque ele seja contra que as pessoas tenham “ideais”, mas porque tais visões entendem que as idéias existem isoladas das condições nas quais as pessoas vivem.

As idéias das pessoas estão intimamente ligadas ao tipo de vida que elas são capazes de viver. Vamos tomar o “egoísmo” como exemplo. A sociedade capitalista de hoje estimula o egoísmo – mesmo em pessoas que tentam sacrificar seus próprios interesses em benefício de outros. Um trabalhador que tenta fazer o melhor por seus filhos, ou ajudar seus pais a ter uma vida melhor na velhice, descobre que o único meio de fazer essa coisas é lutar continuamente contra outras pessoas – conseguir um emprego melhor, fazer mais horas-extras, ser puxa-saco do patrão, etc. Em tal sociedade você não pode se livrar do “egoísmo” ou da “cobiça” apenas mudando as mentes dos indivíduos.

É ainda mais ridículo falar em mudar a sociedade através da mudança das idéias das “pessoas do topo”. Suponha que você consiga conquistar um grande empresário para as idéias socialistas e ele pare de explorar trabalhadores. Ele simplesmente iria perder competição com os empresários rivais e perder seu negócio.

Mesmo para aqueles que governam a sociedade o que importa não são as idéias, mas a estrutura social sobre a qual se apoiam essas idéias.

Isto pode ser colocado de outra maneira. Se são as idéias que mudam a sociedade, de onde elas vêm? Vivemos em um determinado tipo de sociedade. As idéias divulgadas pela imprensa, TV, sistema educacional e assim por diante, defendem este tipo de sociedade. Então como as pessoas são capazes de desenvolver idéias completamente diferentes delas? Porque as experiências da vida diária contradizem a idéias oficiais de nossa sociedade.

Por exemplo, não se pode explicar porque muito menos pessoas são religiosas hoje do que há 100 anos simplesmente pela grande divulgação de idéias atéias. Ao contrário, é preciso explicar porque as pessoas são capazes de conceber um mundo sem deus de um modo que não conseguiriam cem anos atrás.

Da mesma forma, se quisermos explicar a capacidade de liderança dos grandes homens, temos que explicar primeiro porque as pessoas concordam em seguí-los. Não adianta dizer, por exemplo, que Napoleão ou Lenin mudaram a história, sem explicar porque milhões de pessoas aceitaram fazer o que eles propunham. Afinal, eles não eram especialistas em hipnose coletiva. Alguma coisa em um certo momento na vida da sociedade levou as pessoas a sentir que o que eles propunham parecia correto.

Você somente pode entender como as idéias mudam a história, se entender de onde as idéias vêm e porque as pessoas as aceitam. Isto significa procurar conhecer, para além das idéias, as condições materiais da sociedade na qual elas ocorrem. Por isto é que Marx insistia: “Não é a consciência que determina o ser, mas o ser social que determina a consciência.”

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