A Crise Econômica

A Crise Econômica

 

‘Acumulação de riqueza, de um lado, e de pobreza de outro.’ É assim que Marx resume a principal tendência do capitalismo. Cada capitalista teme a competição do outro capitalista, assim ele faz seus empregados trabalharem o mais duro possível, pagando os salários mais baixos que puderem arrancar.

O resultado é uma desproporção entre o enorme crescimento dos meios de produção de um lado, e o limitado crescimento dos salários e do número de trabalhadores empregados, de outro. Esta, insistia Marx, é a causa básica das crises econômicas.

O modo mais fácil de entender isso é perguntar: quem compra a sempre crescente quantidade de mercadorias? Os baixos salários dos trabalhadores significam que eles não podem comprar os bens que eles mesmos produzem. E o capitalista não pode elevar os salários, por que isso iria destruir seus lucros, que são a força impulsionadora do sistema.

Mas se as empresas não podem vender os bens que produzem, elas terão que baixar seus estoques e demitir trabalhadores. O montante de salários na sociedade cai então ainda mais, e mais empresas não conseguem vender suas mercadorias. Uma ‘crise de superprodução’ se instala, com mercadorias se acumulando por toda a economia sem pessoas suficientes para adquiri-las.

Este tem sido um aspecto recorrente da sociedade capitalista nos últimos 170 anos.

Mas qualquer apologista mais atinado do sistema iria logo chamar a atenção de que há um meio fácil de sair desta crise. Tudo que os capitalistas precisariam fazer seria investir os lucros em novas fábricas e máquinas. Isto iria fornecer trabalho para os trabalhadores, que iriam então ser capazes de comprar os bens encalhados. Isto significa que contanto que novos investimentos sejam feitos, todos as mercadorias produzidas podem ser vendidas e o sistema poderá oferecer emprego para todos.

Marx não era tolo e reconhecia isto. Certamente, como nós já vimos, ele sabia que a pressão da competição sobre os capitalistas os obrigava a investir. Mas, perguntava ele, isto significa que os capitalistas investiriam todo os seus lucros, todo o tempo?

Os capitalistas apenas investiriam em mercadorias se achassem que lhes renderiam um lucro razoável. Se eles não tivessem certeza disso, não arriscariam. Colocariam seu dinheiro no banco e o deixariam lá.

Se o capitalista iria investir ou não, dependia de como ele avaliasse a situação econômica. Se a situação parecesse boa, todos os capitalistas correriam para investir ao mesmo tempo, atropelando uns aos outros na busca pelos melhores locais para construir, na compra de máquinas, escavando a terra por matérias-primas, pagando acima do mercado por mão-de-obra qualificada.

Isto é habitualmente chamado de ‘boom’.

Mas a desenfreada competição por terras, matérias primas e mão-de-obra qualificada empurra os preços dessas coisas para cima. E subitamente um ponto é alcançado, no qual as empresas descobrem que seus custos aumentaram tanto que seus lucros desapareceram.

O ‘boom’ de investimentos de repente dá lugar a uma queda de investimentos. Uma depressão. Ninguém mais quer novas fábricas -os trabalhadores da construção civil perdem seus empregos. Ninguém mais quer novas máquinas – as indústrias de máquinas entram em crise. Ninguém mais quer o aço e ferro que estão sendo produzidos – a indústria de aço começa de repente a produzir abaixo de sua capacidade e deixa de dar lucros. Falências e fechamento se espalham de empresa para empresa, destruindo empregos – e com eles a capacidade dos trabalhadores de comprar bens de outras indústrias.

A história do capitalismo é a história dessas periódicas quedas em depressão, e na insanidade de trabalhadores desempregados morrendo de fome ao lado de fábricas vazias, enquanto estoques de mercadorias ‘indesejadas’ apodrecem.

O capitalismo cria crises de superprodução periodicamente, porque não existe planejamento de modo a impedir as corridas e as fugas dos capitais em investimentos produtivos todos de uma vez.

As pessoas costumam pensar que o Estado pode deter isso. Através da intervenção na economia, aumentando o investimento governamental quando o investimento privado é baixo e reduzindo-o quando o capital privado volta a investir, o Estado manteria a produção em um nível estável. Mas hoje em dia os investimentos estatais também fazem parte da insanidade geral.

Veja o exemplo da British Steel. Dez anos atrás os metalúrgicos foram avisados de que seus empregos estavam sendo eliminados para abrir caminho a modernos e automáticos fornos que produziriam mais aço com menores custos. Hoje a indústria de aço está estagnada, com muitas de suas fábricas ociosas – porque a Inglaterra não foi o único país a embarcar nessa onda de massivos investimentos. França, Alemanha, EUA, Brasil, Europa Oriental, Coréia do Sul, todos fizeram o mesmo. Um excedente mundial de aço aconteceu logo depois – uma crise de superprodução. E os investimentos foram cortados em todos os lugares. Os metalúrgicos, é claro, sofreram nas duas etapas. Quando os investimentos cresceram e quando foram suspensos.

Este é o preço que a humanidade paga por um sistema econômico em que a produção de riquezas enormes é controlada por um pequeno grupo privilegiado, interessado apenas nos lucros. Não importa se esses pequenos grupos privilegiados possuem diretamente as empresas, ou as controlam indiretamente através de seu poder sobre o Estado (como é o caso da British Steel). Enquanto eles usam seu controle para competir uns com os outros, seja nacional ou internacionalmente, são os trabalhadores que sofrem.

A maior loucura do sistema é o fato de que a ‘crise de superprodução’ não acontece de forma alguma devido à superprodução. Todo este excedente de aço, por exemplo, poderia ter ajudado a resolver a fome mundial. Camponeses em todo o mundo tem que arar a terra com arados de madeira – arados de aço iriam ajudar a aumentar a produção mundial de alimentos. Mas os camponeses não têm dinheiro, então o sistema capitalista não se interessa – não há como obter lucro dessa maneira.

Por que as crises tendem a ficar piores

Crises não acontecem apenas com monótona regularidade. Marx também previu que elas ficariam pior à medida que o tempo passasse.

Mesmo se as coisas acontecessem de forma uniforme, sem arranques e recomeços, isto não deteria a tendência geral rumo à crise. Isto porque a competição entre capitalistas (e entre nações capitalistas) força-os a investir em equipamentos que poupam mão-de-obra.

Na Inglaterra hoje quase todos os novos investimentos têm como objetivo o corte do número de trabalhadores. É por isso que existem menos trabalhadores na indústria inglesa que há 10 anos, mesmo que a produção tenha sofrido um pequeno crescimento neste período.

Somente através da ‘produção racionalizada’, do ‘aumento da produtividade’ e da diminuição da mão-de-obra um capitalista pode abocanhar uma fatia do bolo maior do que outros. Mas o resultado para o sistema como um todo é desastroso. Pois isso significa que o número de trabalhadores de forma alguma cresce à mesma velocidade que os investimentos.

Ainda assim a fonte dos lucros é o trabalho dos trabalhadores, o combustível que mantém o sistema funcionando. Se fizermos mais e mais investimentos, sem o correspondente aumento na fonte de lucros, estaremos caminhando para um colapso – isto é tão certo como se quiséssemos dirigir um Jaguar com a mesma quantidade de gasolina utilizada para manter um Uno funcionando.

É por isto que Marx argumentava 100 anos atrás que é exatamente a capacidade do capitalismo em acumular investimentos em novos equipamentos que leva a uma tendência de declínio da taxa de lucro, cuja maior implicação são crises ainda piores.

Esse argumento pode ser ampliado muito simplesmente ao capitalismo de hoje. Ao invés da velha ladainha sobre os ‘tempos ruins’ dando lugar a ‘tempos melhores’, sobre a depressão transformando-se em expansão, o que nós vemos é uma infindável recessão. Qualquer retomada da produção ou queda no desemprego são limitadas e de pouco fôlego.

Apologistas do sistema dizem que isto acontece porque não são feitos investimentos suficientes. Sem novos investimento não são criados novos empregos, sem novos empregos não há novo dinheiro para comprar novas mercadorias. Até aí podemos concordar que isso acontece – só não podemos concordar com a explicação que eles dão para que isso ocorra.

Eles culpam os salários. Os salários estão muito altos, eles dizem, cortando os lucros até o osso. Os capitalistas estão receosos de investir por que não conseguirão um ‘retorno suficiente’.

Mas a crise tem se apresentado mesmo em épocas em que as políticas salariais empurraram o padrão de vida dos trabalhadores para baixo e garantiram lucros elevados para os patrões. Nos anos de 1975 a 1978 vimos os maiores cortes nos salários dos trabalhadores neste século, enquanto os ricos ficaram mais ricos – os 10% mais ricos aumentaram sua participação no bolo nacional de 57,8% em 1974 para 60% em 1976.

E mesmo assim ainda não havia investimento suficiente para deter a crise – e isto aconteceu não somente na Inglaterra, mas também em outros países onde os salários também foram achatados, como a França, Japão, Alemanha Ocidental.

Seria melhor ouvir o que Karl Marx disse 100 anos atrás, do que dar ouvidos aos atuais apologistas do capitalismo.

Marx previu que na medida em que o capitalismo envelhecesse, sua crise ficaria pior devido ao fato de que sua fonte de lucros, a mão-de-obra, de forma alguma conseguiria crescer com tanta rapidez quanto os investimento necessários para colocar a mão-de-obra para trabalhar. Marx escreveu em uma época em que o valor da fábrica e do maquinário necessários para colocar o trabalho em movimento era muito baixo. Desde então, este custo disparou, e hoje pode chegar a 20 ou 30 mil libras. A competição entre as empresas capitalistas forçou-os a usar máquinas cada vez mais caras e maiores. Chegou-se ao ponto em que, na maioria das indústrias, novos maquinários são garantia de menos trabalhadores empregados.

A agência internacional de economia, OECD, calcula que o emprego nas maiores economias do mundo irão despencar nos próximos cinco anos, mesmo que por algum milagre os investimentos disparassem. E isto não deve acontecer. Porque os capitalistas cuidam de seus lucros. E se seus investimentos quadruplicarem, e seus lucros apenas duplicarem, eles ficarão preocupados. Ainda assim isto é o que deve acontecer se a indústria crescer mais rapidamente que a fonte de seus lucros, o trabalho humano.

Como disse o próprio Marx, a taxa de lucro tende a cair. Ele previa que seria alcançado um ponto, a partir do qual qualquer novo investimento seria uma perigosa aventura. A escala de dispêndio necessário para novas máquinas e instalações seria colossal, mas a taxa de juros seria ainda mais baixa do que antes. Quanto este ponto fosse alcançado, cada capitalista (ou estado capitalista) fantasiaria novos e enormes programas de investimentos – mas teria medo de implementá-lo com medo de quebrar.

A atual economia mundial tem muito disso. A British Leyland planeja novas linhas de produção – mas teme perder dinheiro com isso. A British Steel sonha com instalações gigantes que foram planejadas cinco anos atrás – mas teve que congelar os planos porque não consegue vender sua atual produção. Os estaleiros japoneses desistiram de investir em novas instalações e algumas das antigas foram fechadas.

A própria capacidade do capitalismo de construir máquinas cada vez mais produtivas e maiores trouxe o capitalismo a um ponto de uma crise aparentemente permanente.

Um ponto foi atingido nas sociedades escravistas da antigüidade e nas sociedades feudais da Idade Média em que ou a revolução transformaria a sociedade ou ela entraria em uma crise permanente que a faria regredir. No caso de Roma, a revolução não aconteceu e isto levou precisamente à destruição da civilização romana e à Idade das Trevas. No caso de algumas das sociedades feudais – Inglaterra e, mais tarde, França – a revolução destruiu a antiga ordem e permitiu que novos avanços sociais acontecessem, sob o capitalismo.

Agora o próprio capitalismo encara a escolha entre crises permanentes, que irão finalmente mergulhar a humanidade na barbárie através da miséria e da guerra, e a revolução socialista.

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