Manifesto Tecnológico

Tecnologia em Sistemas de Informação – Banco de Dados

O Valor do Trabalho

A teoria do Valor-Trabalho

 

Mas maquinário, capital, produzem bens tanto quanto o trabalho. E se é assim, é uma questão de justiça que o capital, assim como o trabalho, receba sua parte da riqueza produzida. Cada ‘fator de produção’ tem que ter sua recompensa.

É assim que alguém que tivesse aprendido um pouco de economia pró-capitalista responderia à análise marxista da exploração e da mais-valia. E à primeira vista, esta objeção parece fazer algum sentido. Pois, certamente, não se pode produzir bens sem capital.

Mas Marx nunca disse que era possível. O problema é que nosso ponto de partida é bem diferente. Começamos por perguntar: de onde vem o capital? Como os meios de produção surgiram?

A resposta não é difícil de achar. Tudo o que o homem utilizou em sua história para criar riqueza -seja um machado neolítico ou o mais moderno computador- teve que ser produzido pelo trabalho humano. Mesmo o machado foi produzido com outras ferramentas, que por sua vez eram produtos do trabalho humano.

É por isso que Karl Marx costumava se referir aos meios de produção como ‘trabalho morto’. Quando os homens de negócios se gabam do capital que possuem, na realidade estão se gabando do fato de que eles controlam um enorme manancial de trabalho das gerações precedentes. E isso não significa que seja o trabalho de seus ancestrais, os quais não trabalharam mais do que ele o faz agora.

A noção de que o trabalho é fonte de riqueza – costumeiramente chamada de ‘teoria do valor trabalho’- não foi uma descoberta original de Marx. Todos os grandes economistas pró-capitalistas até o tempo de Marx aceitavam essa teoria.

Esses homens, como o economista escocês Adam Smith ou o inglês Ricardo, produziam teorias quando o sistema capitalista industrial ainda era muito jovem – poucos anos antes da Revolução Francesa. Os capitalistas ainda não dominavam a sociedade e precisavam saber a verdadeira fonte de sua riqueza se eles quisessem chegar ao poder. Smith e Ricardo serviam a seus interesses ensinando-lhes que o trabalho criava a riqueza, e que para construir sua riqueza eles teriam que libertar o trabalho do controle das classes dominantes pré-capitalistas.

Mas não demorou muito para que pensadores próximos à classe trabalhadora virassem esse argumento contra os amigos de Smith e Ricardo: se o trabalho cria riqueza, então o trabalho cria o capital. E os ‘os direitos do capital’ nada mais são do que os direitos do trabalho usurpado.

Logo os economistas que apoiavam o capital começaram a dizer que a teoria do valor-trabalho não passava de um monte de insensatez. Mas quando a verdade é chutada pela porta da frente, ela costuma voltar pela porta dos fundos.

Ligue o rádio. Ouça algum tempo e você logo ouvirá um ou outro espertinho dizendo que o que há de errado com a economia nacional é o fato de que ‘as pessoas não trabalham duro o suficiente’ ou, dizendo de outro jeito, que ‘a produtividade está muito baixa’. Não vamos discutir agora se você concorda ou não com essa afirmação. Ao invés disso, vamos dar uma boa olhada nesse raciocínio. Eles nunca dizem ‘as máquinas não trabalham duro o bastante’. Não, são sempre as pessoas, os trabalhadores.

Eles afirmam que se os trabalhadores trabalhassem mais, mais riqueza seria criada, e que isso tornaria possível mais investimentos em novos maquinários. As pessoas que usam este argumento podem não saber, mas elas estão dizendo que mais trabalho cria mais capital. O trabalho é a fonte da riqueza.

Digamos que eu tenha uma nota de uma libra no bolso. Qual é a sua utilidade para mim? Afinal, não passa de um pedaço de papel impresso. Seu valor para mim reside no fato de que eu posso trocá-la por algo útil, que foi feito pelo trabalho de outra pessoa. A nota de uma libra, na verdade, não é nada mais do que um vale que me dá direito a uma certa quantidade de trabalho contido em uma mercadoria. Duas notas de um real me possibilitam trocá-las por uma quantidade duas vezes maior de trabalho, e assim por diante.

Quando medimos riqueza estamos medindo o trabalho que foi despendido para criar essa riqueza.

Obviamente, nem todos produzem a mesma quantidade de trabalho em um mesmo período de tempo. Se eu resolver, por exemplo, fazer uma mesa, levarei cinco ou seis vezes mais tempo que um carpinteiro experiente. Mas ninguém em sã consciência iria considerar a mesa que eu fiz cinco ou seis vezes mais valiosa do que a mesa feita pelo carpinteiro experiente. Seria preciso avaliar meu trabalho de acordo com a quantidade de trabalho necessário para que um carpinteiro a faça e não de acordo com a quantidade de trabalho que eu despendi.

Ou seja, se um carpinteiro levasse oito horas para fazer a mesa, o valor da mesa será considerado como o equivalente a oito horas de trabalho. Este seria o tempo socialmente necessário para fazer a mesa, considerado o nível geral de técnica e habilidade na sociedade hoje.

Por essa razão, Marx insistia que a medida do valor de alguma coisa não é simplesmente o tempo que um indivíduo leva para fazê-la, mas o tempo que um indivíduo irá levar para trabalhar dentro do nível médio de tecnologia e habilidade – ele chamava esse nível médio de trabalho necessário ‘o tempo de trabalho socialmente necessário’. Este ponto é importante porque sob o capitalismo estão sempre acontecendo avanços tecnológicos, o que significa que cada vez menos trabalho é necessário para produzir mercadorias.

Por exemplo, quando se costumava fabricar rádios utilizando válvulas térmicas, eles eram produtos muito caros, porque havia grande quantidade de trabalho na fabricação das válvulas, para interligá-las e assim por diante. Então o transistor foi inventado, e este podia ser feito e interligado com muito menos trabalho. De repente, todos os trabalhadores das fábricas de rádio que ainda utilizavam válvulas, descobriram que o preço do que eles produziam tinha desabado. Pois os preços dos rádios já não eram mais determinados pelo tempo de trabalho necessário para fabricar válvulas, mas pelo tempo necessário para fabricar transistores.

Uma última questão. Os preços de alguns bens flutuam de forma desenfreada. Essas mudanças podem ser causadas por muitos outras coisas, além das mudanças na quantidade de trabalho necessária para produzi-las.

Quando uma geada no Brasil mata todas as plantas de café, o preço do café dispara, porque acontece uma escassez mundial e as pessoas precisam pagar mais. Se amanhã alguma catástrofe natural destruir todas as TVs do país, não tenha dúvida de que o preço dos aparelhos de TV irá disparar do mesmo jeito. O que os economistas chamam de ‘oferta e procura’ causa constantemente tais flutuações no preço.

Por esta razão, muitos economistas pró-capitalistas dizem que a teoria do valor-trabalho é uma insensatez. Dizem somente o que o que importa é a lei da oferta e procura. Mas isto é que é insensatez. Pois este argumento esquece que quando alguma coisa flutua, ela flutua geralmente em torno de um certo nível. O mar avança e recua devido às marés, mas isso não significa que não possamos localizar um ponto em torno do qual ele se move, ao qual chamamos nível do mar.

Da mesma forma, o fato de que os preços subam e desçam diariamente não significa que não existam valores fixos em torno dos quais eles flutuam. Por exemplo, se todos os aparelhos de TV fossem destruídos, os primeiros a serem produzidos seriam muito procurados e alcançariam preços elevadíssimos. Mas não demoraria muito para que mais e mais aparelhos chegassem ao mercado, competindo uns com os outros até que os preços fossem forçados a diminuir até chegar aos níveis do tempo socialmente necessário para produzi-los.

Competição e Acumulação

Houve um tempo em que o capitalismo parecia ser um sistema dinâmico e progressista. Na maior parte da história humana, as vidas da maioria dos homens e mulheres foram dominadas pelo trabalho árduo e pela exploração. O capitalismo não mudou isto quando apareceu nos séculos 18 e 19.

Mas ele parecia ter dado ao trabalho árduo e à exploração um propósito útil. Ao invés de gastar grandes quantias na luxúria de uns poucos aristocratas parasitas ou na construção de imponentes tumbas para monarcas mortos, ou ainda em guerras fúteis para conquistar um pedaço de território para o filho de algum imperador. O surgimento do capitalismo foi um período de crescimento das indústrias, cidades, meios de transporte, em uma escala nunca sonhada pela história humana anterior.

Estranho como possa parecer hoje, lugares como Oldham e Halifax e Bingley eram lugares em que se operavam milagres. A humanidade nunca tinha visto antes tanto algodão e lã transformados tão rapidamente em vestuários para vestir milhões. Isto não aconteceu porque os capitalistas tivessem alguma virtude especial. Eles eram sempre pessoas um tanto doentias, obcecadas somente por colocar suas mãos na maior riqueza possível através do pagamento mais baixo possível pelo trabalho que eles utilizavam.

Muitas classes dominantes anteriores tinham sido como eles neste aspecto, sem terem construído indústrias. Mas os capitalistas são diferentes por duas razões importantes.

A primeira é o fato de que eles não possuem seus próprios trabalhadores, mas pagam esses trabalhadores por sua habilidade no trabalho, por sua força de trabalho. São escravos assalariados, não são escravos. A segunda razão é que eles próprios não consomem os bens que seus trabalhadores produzem. O senhor feudal vive diretamente da carne, do pão, queijo e vinho produzidos por seus servos. Mas o capitalista vive da venda dos bens produzidos por seus trabalhadores para outras pessoas.

Isto dá ao capitalista individual menos liberdade para fazer o que bem entende do que tinham os senhores feudais e proprietários de escravos. Para vender mercadorias, o capitalista tem que produzi-las o mais barato possível. O capitalista possui a fábrica e é todo poderoso dentro dela. Mas não pode usar este poder da forma que quiser. Ele tem que se curvar diante das necessidades de competição com outras fábricas.

Voltemos ao nosso capitalista favorito, Sr. Castro Castanho. Consideremos que uma certa quantidade de pano de algodão leva 10 horas do tempo do trabalhador de sua fábrica para ser produzido, mas em outra fábrica essa mesma quantidade leva apenas cinco horas. O Sr. Castanho não poderia fixar o preço de sua mercadoria tomando como base as 10 horas de trabalho. Ninguém em sã consciência iria pagar esse preço quando poderia pagar mais barato pelo pano ao virar a esquina.

Qualquer capitalista que queira sobreviver nos negócios tem que assegurar que seus trabalhadores trabalham tão rápido quanto possível. Mas isto não é tudo. Ele também tem que providenciar que seus trabalhadores trabalhem com o maquinário mais moderno, de modo que o trabalho deles produza tantos bens em uma hora quanto os trabalhadores que trabalham para os outros capitalistas. O capitalista que quiser permanecer nos negócios, tem que se assegurar de possuir cada vez maiores quantidades de meios de produção – ou, como Marx disse, acumular capital!

A competição entre capitalistas produziu um poder, o sistema de mercado, que prende todos e cada um sob seu poder. Ele obriga todos a acelerar o processo produtivo o tempo todo e investir tudo o que puderem em novos maquinários. E eles somente podem se dar ao luxo de gastar em novas máquinas (e, obviamente, manter sua vida de luxo) se mantiverem os salários de seus trabalhadores o mais baixo que puderem.

Em sua maior obra, O Capital, Marx escreve que o capitalista é como um miserável, obcecado em juntar mais e mais riquezas. Mas ‘o que no miserável é mera idiossincrasia, no capitalista, é o efeito de um mecanismo social em relação ao qual ele não passa de uma das engrenagens… O desenvolvimento da produção capitalista torna constantemente necessário manter o crescimento do total de capital colocado em um determinado empreendimento, e a competição faz com que as leis imanentes do capital sejam percebidas por cada capitalista como sendo leis coercitivas externas. Isso os obriga a manter seu capital crescendo constantemente para preservá-lo. Mas ele só pode fazer isso através de uma acumulação progressiva. ‘Acumulai! Acumulai! Dizem Moisés e outros profetas.’

A produção não acontece para satisfazer as necessidades humanas – mesmo as necessidades humanas da classe capitalista – mas para possibilitar ao capitalista sobreviver na competição com outros capitalistas. Os trabalhadores que são empregados por cada patrão descobrem que suas vidas são dominadas pela necessidade de seus empregadores de acumular mais rapidamente que seus rivais.

Como Marx disse no Manifesto Comunista: ‘Na sociedade burguesa o trabalho vivo não passa de um meio para acumular trabalho morto… O capital é independente e tem sua individualidade, enquanto as pessoas são dependentes e não tem qualquer individualidade’ .

A compulsão dos capitalistas por acumular em competição uns com os outros explica o grande impulso para frente da indústria nos primeiros anos do sistema. Mas outra coisa também resultou disso. As crises econômicas não são novas. São tão velhas como o próprio sistema.

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